Tape/Rec

Sempre achei que Naomi era bem introspectiva em tudo, até no dia a dia. Num determinado momento ela estava lá num canto da sala, cabisbaixa, bebendo seu Martini Rosê e assistindo a "Conta Comigo" pela centésima vez. Em outros, estava saciando a sede com tônica, rindo de
Charlie Harper num episódio de Two And A Half Men, pela TV a cabo.
Foi mais ou menos assim comigo e com ela. Houve dias de calmaria, e houve dias de turbulência. Houve o início, e houve o fim. Houve o Retorno, e houve o descaso.
Parâmetros alterados.
Em dias ensolarados, sua presença me agraciava. Sua voz soava como a mais doce melodia criada, desde "Everybody Hurts" do REM. Sua figura nua em minha cama era como a Monalisa dos meus sonhos mais intensos e molhados. No beijo salivava o mais puro néctar dos Deuses. Dias de Sol.
Mas aí veio o dia cinza, o qual eu jamais esperaria ver. Os beijos se tornaram insípidos, o simples falar era finalizado com um "sim", "não" ou "talvez". Olhares desencontrados.
Flores para um longo inverno. Perguntei-me ao final o que fiz, por estar ali naquela situação, de mãos atadas e esperando o veredicto, como o prisioneiro se dirigindo a cadeira da morte. Foi quando ouvi dizer "Não é você, sou eu. Amanhã venho buscar minhas coisas. Pode ficar com o DVD do Radiohead."
Delírio (Sub)urbano – Crônicas, Poesia Livre E Outras Letras

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Mesmo contrariado, depois de algum tempo vi que Naomi estava certa. Não há erros, nem meus, nem dela. Há um ciclo fechado, em que as coisas se iniciam, e não se finalizam da forma que queremos ou julgamos certo. Nós que ficamos esperando um "comercial de margarina" no
dia seguinte, sem nos preparar para o pior. Como quando dormimos e sonhamos, e no meio do sonho despertamos.
Mas a vida continua e o dia se inicia, mesmo fora desse sonho.
É de manhã. Acordo com o barulho da campainha. Levanto-me a passos largos e vagarosos, tentando encaixar meu olhar no olho mágico da porta. Do outro lado está Naomi, com uma bolsa aparentemente vaziaá mão. Abro a porta.
-Desculpe se acordei você, mas só pude vir agora pela manhã.
-Tudo bem, já era hora de acordar disse eu, num tom hipócrita.
-Posso entrar?
-Sim, claro.
Naomi entra e já vai direto ao quarto pegar suas coisas, e colocá-las dentro de sua bolsa. Roupas, DVDs e Cd"s.". Tudo é colocado dentro daquele abismo de couro. Em meio a tudo aquilo, ela pega o "Fuzzy" e diz:
-Se quiser poder ficar com esse cd do Grant Lee Buffalo.
Gosto de algumas músicas dele apenas.
-Ok...
-Mas faz um favor para mim? Dele, grave "The Hook", "Fuzzy" e "America Snoring", e também aquele botleg do Pearl Jam que você tem, que depois eu volto para pegar tudo que gravou, junto com meus livros.
Carlos A.

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-Tudo bem. No fim de semana, pode vir buscar. Pensei que você curtisse o Grant Lee Buffalo. Recordo-me na época, que passou o dia inteiro pedindo de presente a mim.
-É que agora estou mais numas de curtir World Music, David Byrne... você sabe neh?
-Entendo... introspectiva... - disse eu, sorrindo.
-Mas esse do Pearl Jam, grave numa fita k7, pois meu carro não tem cd player, como bem sabe.
Naomi fecha sua bolsa, olha prá mim, me beijando tenramente.
-As coisas vão se acertar... tanto prá mim quanto prá você. Mas temos que seguir separados.
-Como dizem as pessoas, é um novo ciclo na vida- disse eu, incrédulo, porém sensato.
E lá se vai pelo corredor a pessoa que dividia as alegrias, tristezas e aluguel do apartamento.
E como dizem as más línguas, há sempre algo de bom e ruim que se tira nessa história, por enquanto é o momento "down" de tudo, em que os dias passam, e você vai tentando se acostumar com o novo modo de vida que viverá. Mas passa.
Por enquanto o que me resta é curtir meu bode, lembrarse de tudo que rolou com ela, tipo um "Best of mental", e depois disso sentar no sofá, ligar o REC do tape Deck, e gravar o que ela pediu.
O título do k7 em mente? Sim, tenho...
Músicas Bipolares....

 

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