A maior vergonha do Brasil

É preciso ter estômago forte se quisermos ler o jornal pela manhã. Crimes bárbaros, mau exemplo dos políticos, desemprego, analfabetismo, etc.
Ainda assim percebemos que o Brasil anda melhor do que  esteve décadas atrás.
Feita esta pequena introdução, convido o leitor a me responder uma questão. 
Qual  fato que, ao receber uma cobertura jornalística,nos faz corar e perceber o quanto o Brasil precisa caminhar para sair do subdesenvolvimento? 
Em suma, qual hoje seria a grande vergonha do Brasil?
No caso deste debate,  minha definição de vergonha não é similar a do substantivo problema, pois refiro-me a situações ligadas à degradação humana, à falta de cidadania. Problemas podem ser de toda ordem.
Considero que qualquer reportagem que cubra um dos tópicos do nosso primeiro parágrafo, uma vez tendo destaque na imprensa internacional, seria motivo de embaraço.
Contudo, acredito que nada avilte mais a história do povo brasileiro do que a tortura. Que houve e ainda existe.
É vergonha maior porque passamos por um período de autoritarismo em que esta prática foi o recurso para calar a sociedade, para intimidar, para forçar delações. Por respeito à nossa memória e à democracia, a tortura deveria ter ficado no passado.
Infelizmente, parece longe de acabar.
Pode haver exceções, mas certamente, a tortura habita muitas das unidades policiais em várias pelos estados do Brasil.
E, por fim, a tortura existe por parte de determinadas organizações  que impõe suas regras nas  comunidades da perifeira. A ação pode ser comandada por traficantes ou milicianos, o resultado são “retratos do mal em si” (cito aqui a letra de Não chores mais, de Gilberto Gil).
Mutilações, tiros nas mãos, pessoas queimadas. É desafiador imaginar como criminosos conseguem chegar a tais requintes de crueldade, totalmente indiferentes à dor alheia. Incapazes de identificar nas suas vítimas traços de humanidade.  
A violência destes tribunais de exceção remete aos nazistas, que se acreditavam como uma raça superior  e deixaram um legado de vergonha que não sumirá da humanidade.
A tortura remete ao autoritarismo, é uma característica comum de todo reinado de terror.
Por isto, hoje esta prática vil está acompanhada  da alienação política. Quando comandada pelos criminosos do tráfico ajuda a criar um clima favorável à mesma pratica, se exercida por maus agentes do poder publico. Uma parte da sociedade civil se guia pela crença de que não se deve ser condescendente com quem não tem limites. O termo guerra sempre que utilizado com referência ao combate ao tráfico corrobora para a tese do “vale tudo”.
A ditadura militar ficou no passado, mas o tempo que ajuda a cicatrizar as feridas também ajuda  a esquecer a cara do agressor. Já não é vergonha políticos aparecerem em programas de TV e dizerem que apoiariam uma nova ditadura militar nos dias de hoje. Isto seria impensável há poucos anos. Não teriam a desfaçatez. É bom que os simpatizantes da falta da liberdade possam se expressar livremente, mas quando se sentem tão a vontade para fazê-lo, isto comprova o nosso grau de entorpecimento.
Chegamos até ao cúmulo de saber que pessoas aplaudiram cenas de tortura durante uma exibição de Tropa de Elite.
A tortura vai ganhando seus simpatizantes  na mesma medida em que o ser humano enxerga o vizinho como um rival ou um inimigo. E a sociedade caminha rumo a um patamar de individualismo exacerbado e infantil no qual somos indiferentes a noção de liberdade, conquanto nossos direitos não sejam atingidos.
Não há solução a curto prazo, mas, sim, ações. Protestar é uma delas. Não deixar o passado cair no esquecimento é outra. Os mais jovens deveriam ver “Pra frente, Brasil”, de Roberto Farias,  e “Zuzu Angel”, dirigido por Sergio Rezende.  Destaco principalmente o documentário “Que bom te ver viva”, de Lúcia Murat.
 Para finalizar, um trecho da letra de Gilberto Gil para a canção do mestre Bob:

“Em que eu me lembro/Da gente sentado ali/Na grama do aterro, sob o sol/
Observando hipócritas/Disfarçados, rondando ao redor.../Amigos presos, amigos sumindo assim/ Pra nunca mais/Tais recordações/Retratos do mal em si/ Melhor é deixar prá trás....”

 

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