Casamento e atropelamento

O que aquela cidadezinha tinha de tão especial, fora ser um ótimo cenário para atropelamentos?

O veiculo colidiu com o triciclo. O menino, com a perna sangrando, deveria ter, no maximo, uns oito anos de idade. Saiu do carro, esbaforido, um homem, de olhos claros e camisa social.
- Você não viu o carro, não?
O garoto chorava, deitado.
- Como é que sua mãe te deixa andar por ái, um pirralho tão ruim de senso de direção?
O menino aumentou o choro.
O homem levou as mãos em direção a perna do garoto, como se fosse um ortopedista, mas desistiu da ação, levando-as de volta aos bolsos.
- Que perna suja, a sua, hein?
O menino não respondeu.
- Você anda sempre assim com as pernas cheias de terra?
- Porque eu caí...- pronto, o menino manifestou-se, em uma voz civilizada.
- É, você tem razão, rapaz.
De súbito, saiu uma moça de dentro do carro.
- Lucas, o que você está fazendo?
- Eu é que quero saber o que você estava fazendo.
- Como assim? Você sabe que eu acordo com facilidade.
Mesmo assim, ela não acordou com a colisão. Foi preciso que seu sono estranhasse a falta do sacolejo do carro.
Os dois deveriam ter uns 26 ou 27 anos.
- Nós atropelamos um menino.
- Nós, não., alto lá! Você! Eu estava dormindo. Você mesmo pode ser minha testemunha.
- Vem cá, Edna.
A mulher aproximou-se e ficou aliviada por ver que o aquele pequeno corpo era de um ser ainda vivo.
- E agora? – perguntou ela.
- E agora, pergunto eu. Você veio ajudar com alguma coisa ou chegou para reforçar o estresse?
- Vamos levar para o hospital, então.
- Ótima idéia, eu ligo para a sua irmã e peço para ela casar amanhã. Não deve ser difícil adiar um casamento no mesmo dia, basta avisar os 500 convidados...
- Porra, é mesmo, e nós somos padrinhos! Esse sono da tarde tira todo o meu raciocínio.
- Ou então, eu sigo para o hospital com ele e você vai para cerimônia me representando.
- Mas está longe demais. Ah, se eu soubesse dirigir, ficava com o carro.
- E eu ficava com o menino, fodido, a pé, sem ter como ir te encontrar. Como diz o ditado: fodido uma vez, fodido duas, né?
O garoto irritou-se:
- Não fala isso!É feio...
- Ora, por que, sua peste? Além de ser atropelado por mim, atrapalhando a tarde do meu sábado, agora vem me dizer o que posso ou não posso dizer?
- Calma...- pediu a mulher.
O menino voltou a chorar e agora outros transeuntes se aproximavam. O céu era daqueles com cara de dilúvio. E uma ameaça de chuva circulava bem desinibida pelos arredores.
- O meu pai não gosta que fale palavrão – disse o menino.
- E daí, o seu pai, cara? E daí? Dane-se ele! – o homem estava bem alterado.
O menino estava com medo.
- E sabe o que vai ser pior? É que você vai ter que tomar um monte de injeções – agora o atropelador se regozijava ao assustar o pequeno.
- E se tiver uma reação à anestesia pode ficar em coma, vivendo que nem uma planta – dessa feita era a mulher que, se antes defendia o menino, não resistiu a uma oportunidade de demonstrar toda a sua crueldade.
- Paaaiiii – chorava o menino.
- Seu pai não vai ouvir, cala a boca.
- Paaai!!
- Cale a boca – gritou a mulher, com medo das pessoas que agora estavam a uma distância suficiente para ouvir o diálogo entre o casal e a criança.
Então, o trovão:
- O que houve, filho?
O homem e a mulher viraram para trás e viram um indivíduo enorme de cerca de 35 anos, trajando o uniforme da policia. Era o pai biológico.
Era uma cidade pequena e não estava tão distante do município onde se realizaria o casamento da irmã de Edna, Nicole. Diga-se de passagem, Nicole era a culpada. Se for se casar sem a presença dos padrinhos, seria de sua responsabilidade. Afinal, por que não se quis fazer a cerimônia no Rio de Janeiro onde quase toda a família morava? O que aquela cidadezinha tinha de tão especial, fora ser um ótimo cenário para atropelamentos?
Isso, aqueles padrinhos não descobriram.

 

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