A incompatibilidade televisiva e o feijão

Sentaram-se à mesa, o marido, ligeiramente aborrecido porque nem sempre os planos saem conforme o figurino. E quando se trabalha cercado de advogados, então, nem se fala... Alheia às aflições do cônjuge, a mulher mexia nas folhas, escolhendo como iria dispor a salada no prato.
- Tem feijão? – a pergunta de Eusébio talvez trouxesse um ingrediente de provocação, porque se houvesse o legume, ele estaria em uma travessa. E estaria na mesa, claro.
- Ih, feijão, não...
- Ah, então não tem feijão? – ele insistia, agora coçando a barba e olhando para o lado, como se estivesse tentando sua melhor imitação de um daqueles personagens psicopatas de Robert de Niro.
- Não, não tem. Esqueci de comprar.
- Só porque você não liga para o feijão, então esquece, não tá nem aí...- resmungou o homem.
- Não, não é por causa disso. Eu também trabalho, sabia? – Agora a mulher começava a se irritar.
-  E eu também trabalho! Nem por isso deixo de fazer as coisas da casa...Imagine que você chega em casa, liga a TV e não tem televisão porque eu não paguei a eletricidade...como você iria se sentir?
- O que isso tem a ver com o  feijão?
- Como você ia se sentir?
- Olha, eu não ligaria a televisão, simplesmente.
- Ora, ora..por quê?
- se eu chegasse em casa e a luz não acendesse, eu já me pouparia o trabalho de ligar a TV...
- Ah, muito esperta! E se EU não pagasse a TV a cabo e você não pudesse assistir àqueles seus seriados engraçadinhos?
- Quais seriados?
- Sei lá, aquele que tem até um cara que já foi preso, um sujeito encrenqueiro...
- Um cara que foi preso na vida real ou na série?
- Na vida real.
- Ah, mas você está falando de ...”Crazy crazy guy”.
- Esse mesmo, e se você não pudesse assistir “crazy, crazy Guy”?
- Quer saber? Não ia dar a mínima porque esse seriado não existe, acabei de inventar o nome!
- Qual a diferença que faz o nome? Eu sei o seriado que você assiste, aliás, são vários.
- Você não sabe nada de mim, nada do que eu gosto. Quem garante que se você não pagar a TV a cabo, eu não possa continuar a assistir? Tem vários canais que passam sem TV a cabo!
- Ah, pára com isso, tanto faz onde passa. Aqui até os canais gratuitos a gente vê na TV paga...
- EU sei os seriados que você vê.
- E daí, o que isso prova? Lembrar de comprar feijão é muito mais importante do que saber o que o outro assiste na TV.
- “Judge and cops”, “Criminal partner”, “Smith goes again”, “Married woman”, “Cronk”.
O marido ficou estupefato.
-  Está vendo? Eu sei.
- Você está me vigiando, isso sim.
- Eu assisto a pelo menos um seriado por dia, às vezes, dois! E você não sabe o nome de nenhum! Eu sei os que você assiste.  E tem mais:  o nosso jantar não dura nem vinte minutos...eu nunca imaginei que você desse toda essa importância a feijão...
- É porque nunca tinha faltado.
- Seria muito mais lógico que você soubesse pelo menos o nome de dos meus programas favoritos de tv... a gente passa muito mais tempo vendo TV do que comendo feijão...além disso, eu não sou cozinheira, estou quebrando o galho enquanto a Gertrudes não volta das férias...
O homem coçou a cabeça:
- É mesmo, a gente vê muita TV, mas nenhum programa em comum!
- Deve ser um caso de incompatibilidade televisiva – aquiesceu a mulher.
-...Mas que eu gosto de feijão você tinha que saber, porque a gente janta junto todos dias há nove anos – no fundo, o marido continuava indignado.
Depois desse embate filosófico-televisivo tomaram algumas decisões. Anote que podem servir para você, leitor, se o caso trouxer alguma similaridade com a sua vida. Combinaram tentar assistir a pelo menos um seriado em comum. Se a tarefa for árdua, eles resolveram radicalizar e vender uma televisão, ficando apenas com a outra.  Fora do futebol, atração defenestrada pela mulher, deve haver algum programa que tenha o potencial de agradar a ambos perfis.
Na falta de feijão, se tratar-se de uma emergência, a mulher sugeriu:
- Por que a gente não come lentilha de vez em quando?

 

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