UMA HISTÓRIA SEM COMEÇO NEM FINAL


 
            Quando descobriu que não conseguia escrever sequer a primeira frase, sobreveio a constatação: estava árido de idéias.
            – Fase – disse um amigo, também escritor. – Passa.
            – Passa – concordava ele. – Mas tá custando. Pô, seis meses de molho! 
            – O mundo foi feito em sete dias.
            – Do que você tá falando? Eu disse seis meses!
            Era o mesmo problema, sempre. Sentava diante do computador e ficava horas a fio olhando para a tela em branco, desesperadora em sua cibernética indiferença. Às vezes a escassez de criatividade era tão grande que o conduzia a outros caminhos. Não raras vezes a empregada o surpreendeu dormindo sentado, diante do monitor escurecido pelo desuso.
            Andou se encharcando de café, virando noites em claro na ânsia de uma cócega cerebral.
            – Não força – aconselhava o outro. – As idéias vão aparecer normalmente.   
            – Assim não é possível! Sou um escritor. Um escritor escreve. Se não escrevo, não sou escritor. O que eu sou?
            – Apavorado.
            – Ora, vá plantar batatas.
            – Dá uma volta – sugeriu uma amiga que criava pássaros. – Veja coisas novas, diferentes... Sempre pinta uma idéia.
            Passou um dia inteiro andando. Rodou o Rio de alto a baixo. Não criou idéias. Mas aprendeu a geografia da cidade.
            Uma noite, ligou para o amigo:
            – Consegui!
            – Conseguiu?
            – Finalmente!
            – Não disse que a fase passava?
            – Escrevi meia página.
            As idéias agora vinham, aos borbotões. Tantas que quase precisava digitar em duas janelas ao mesmo tempo, para não perdê-las. As histórias fluíam que era uma beleza até a metade. Daí...
            – E daí?
– Daí nada. Não consigo concluir.    
Novo drama. Agora de finais. A mulher morta que vagava à noite em cima de sua lápide. O pato que se apaixonou por sua dona e tinha crises de ciúmes do marido dela. A quadrilha de pombos treinados que tomou uma cidade de assalto. E daí? E daí? E daí?
Mais noites em claro. Caçava finais, que nem precisavam ser felizes. Vontade de encerrar a narrativa de qualquer jeito. Matar todos os personagens na última frase. Mas não se faz isso sem mais nem menos. E o prazo da editora expirava no fim do mês. Se não tivesse a obra pronta...
– Tá tudo descontrolado! Antes eu não conseguia começar nada. Agora começo tanta coisa que as idéias se atropelam e não sei como terminar.
– Mas tu não sabe o que quer, hein? Reclama na falta e na abundância.
Ia acumulando pilhas de contos interrompidos, à espera de finais que os redimissem e, mais que tudo, garantissem a continuação de seu contrato – e de sua conta bancária. O desespero crescente não encontrava eco na ampliação das exigências editoriais.
Até que teve um estalo. Tão criativo que nem parecia ter vivido uma crise de idéias pouco tempo antes.
Na semana seguinte, lançou seu novo livro, Contos inacabados.

 

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