O fantasma e a corrente
 
O acidente afetou Jéssica. Um parque de diversões, um brinquedo aparentemente inofensivo. Mas na descida, ela percebeu quase de imediato."Nunca mais serei a mesma", disse.
Andava mancando, tinha vergonha da própria mãe, que, aos 60 anos, ainda conservava a altivez da juventude.

"Desde a queda, tornei-me velha por opção", disse, em um belo dia, como que para consolar-se. Resolveu sair de casa. Para fugir dos olhares paternos que refletiam, na íris, tudo o que Jéssica havia se tornado. Fugiu. Para que não fosse encontrada por nenhum conhecido. Um lugar onde não houvesse aquele passado, que reluzia cruelmente em cada passo trôpego que dava.

No interior de Minas, encontrou um emprego, de secretária. E descobriu, aos 27 anos, que ainda se apegava aos conselhos que recebera em casa. Lembrou da história do primeiro emprego de sua mãe. Ela havia avisado ao patrão logo em seu primeiro dia de trabalho "sou casada, hein?". Agora, pensando bem, parecia meio irreal. Por que ela haveria de dizer tal coisa ao seu empregador, se não houvesse algum motivo? Era uma história truncada, pensou Jéssica. Contudo, poderia funcionar. Logo, sutilmente Jéssica passou a fazer alusões a um fictício marido. Não para afastar os homens, mas para provar a todos que a sua deficiência não a impedia. De nada, inclusive de amar e ser amada em generosas proporções.

Não havia muita gente trabalhando na firma. O gerente Róbson e ela ficavam em uma sala. O chefão, Monarco, certamente herdou o negócio do pai. Quase não aparecia lá. Havia outras cinco empregadas. Entre elas, Madeleine, secretária de Monarco. Um cargo melhor remunerado do que o dela. E que podia desfrutar de uma sala com ar condicionado.

Era estranho ver Monarco dando ordens a Madeleine, uma senhora de seus cinqüenta e tantos anos. Uma inversão da lógica da vida, pensou Jéssica. Uns começam por cima, o cara deve ter mesmo herdado a firma, com todas facilidades que tem direito.

O gerente Róbson era muito cordato e, em poucos meses, perceberam que havia muita empatia. Até que chegou Emília, outra funcionária, com funções semelhantes às de Jéssica. Isso não seria problema se Madeleine não resolvesse se aposentar. E as mulheres da firma, em grande número, nutriam esperanças de assumir o posto.

Jéssica usava uma saia abaixo dos joelhos, mas isto não impedia Róbson de sorrir como se o seu campo de visão alcançasse algo mais. Entretanto, não era aquele mostrar de dentes de escárnio que caracteriza os cafajestes. Era singelo, tranqüilo, exatamente do que a moça precisava para confiar em alguém.

E, em uma quinta-feira nublada, ele avisou a Jéssica: "Estou sentindo que sua vida vai melhorar em breve". Ela passou as mãos pelos cabelos cacheados e retribuiu com um sorriso contido. Só que os olhos faiscavam e ela fitava o chão para esconder a emoção que lhe tomava quando o gerente a abordava. Elucubrava "estaria ele se referindo à vaga de Madeleine? Será que ele vai me indicar?" No entanto, também não descartava a possibilidade de ele estar se insinuando. "Será que está se referindo a uma vida melhor... com ele? Será que ele vai me chamar para jantar?"

Róbson tinha uns 60 anos, uns 25 anos mais velho do Jéssica. Mas nutria por ela um sentimento especial. Era viúvo. Não descartava a hipótese de uma nova união. Que poderia acontecer, se não fosse uma malfadada quarta-feira 10 de março, quando Monarco resolveu aparecer na firma horas depois do expediente encerrado e encontrou Emília, a nova funcionária, no local, aliás, a única que ainda estava lá àquelas horas. No caso, estava ali apenas porque havia esquecido as chaves do carro. Ao ouvir o barulho, a moça temeu ser um ladrão e se escondeu embaixo de uma mesa. Até que percebeu que era o poderoso Monarco, emprumou-se e fingiu estar desligando o computador.

"Você ainda está aqui?", surpreendeu Monarco.

"Não gosto de deixar as coisas pela metade", desdenhou ela, que conseguiu ali, de imediato, um admirador.

Este episódio catapultou a carreira de Emília, que acabou sendo indicada para o posto de Madeleine. Ela, com menos de um mês de firma, passara Jéssica, que já tinha quase uns três anos de trabalho firme. Monarco havia ficado muito impressionado com o empenho da funcionária, trabalhando sozinha, mesmo quando todos já haviam ido embora. Só que ninguém nunca soube deste episódio do encontro do chefe com Emília, e, de forma geral, todos acabaram achando que Emília fora uma indicação de Róbson.

"O canalha deve estar apaixonado pela nova moçoila", pensou Jéssica. O que parecia se confirmar pelo fato de que ele sempre oferecia à nova secretária-geral uma carona para casa. "Ele nunca me ofereceu uma carona, em todos esses anos". O ódio aumentava na medida em que ela lembrava o fato de Róbson lhe estar profetizando uma melhora de vida. "Estava debochando de mim. Talvez até alguma piada com a minha deficiência".

Então, quando o copo vazio transbordou, não havia mais jeito. Jéssica pediu a Robson que lhe deixasse perto de casa. Pediu a ele uma carona. Inventou um endereço, de modo que o homem fosse obrigado a livrar-se primeiro da nefasta Emília.

Quando estavam a sós, no carro, ela pediu que encostasse. A rua estava vazia. Ele olhou bem. "Parar aqui pode ser perigoso...", advertiu o homem. "Por favor, estou meio enjoada", ela disse. Só um minutinho. Ele parou.

Róbson colocou a cabeça para fora da janela e acendeu um cigarro. Quando virou o rosto para dirigir uma palavra à mulher, ela foi mais rápida. "Você nunca me ofereceu uma carona". E ele respondeu que ela nunca lhe dissera onde morava. "Mas você podia ter me perguntado", reclamou. Não ia ficar bem, disse Róbson, justificando que ela sempre falava do marido. E Róbson era seu superior direto. Ia parecer assédio sexual. "Você gostaria que eu lhe perguntasse sobre sua vida?", quis saber Róbson. Ela emudeceu.

Foi neste momento que ele se revelou:

"Eu sempre fui interessado em você. Por mim, eu poderia lhe buscar e deixar em casa todos os dias.", confessou ele. E arrematou, dizendo que gostava dela, que estava apaixonado e que nunca se declarara pelo fato de ela ser comprometida.

Ela não resistiu. Abriu a bolsa e tirou o pequeno frasco. Parecia uma colônia, mas era o ácido que ela arremessou nos olhos do homem. "Mentiroso! Então porque indicou Emília?", pensou. O homem aos berros. A cegueira, inevitável, era pouco diante da petulância do crápula. Emília mal chegara à firma, não poderia ser promovida, não fosse verdadeira a hipótese de eles estarem tendo um caso. E as caronas que Robson oferecia a ela eram só o disfarce para os encontros.
Agora ele vem declarar que está apaixonado por mim?, pensa que sou estúpida? – indignou-se Jéssica.

O frasco não estava na bolsa à toa. Ela premeditara tudo, mas estava na dúvida se iria em frente. Foi a declaração de amor o incentivo para seu ato. Lembrou do olhar dos pais, nunca o mesmo depois do acidente que lhe acometeu. Sua beleza fora anulada, gradualmente, pelo que se transformara. Achavam-na linda, porém havia se transformado em um fantasma arrastando uma enorme corrente. Arrastar-se-ia de volta para a casa dos pais, a belíssima mansão. Ela não merecia continuar naquela rotina de trabalho fatigante e ganho irrisório. Era rica. Deve haver outro jeito de se esconder.

 

Voltar