AMOR ALÉM DA MORTE
 

Foi somente no velório que a mulher revelou aos presentes – parentes e amigos do casal – o último desejo do marido: queria ser cremado.
            Fez-se espanto na capela. Os mais chegados ao agora falecido nunca tinham ouvido falar em semelhante vontade.
            – Ele era muito reservado quanto a isso – justificava a viúva, para explicar a surpreendente decisão do homem com quem havia dividido a cama e outros objetos nos últimos quinze anos.
            Os trâmites legais foram rapidamente providenciados. A mulher exibia, para quem quisesse ver, um documento, com o carimbo de registro em cartório, no qual o falecido confirmava, por escrito, seu desejo de literalmente virar cinza após a morte. A letra era dele mesmo, não havia espaço para qualquer dúvida. Nada mais alegra a alma de um morto do que a certeza de que seu último pedido será atendido.
            – Onde ele estiver – seguia a viúva – vai ficar feliz por ver que fizemos o que pediu.
            O cunhado protestou: não admitia que seu irmão pudesse ser cremado, sob qualquer pretexto. “Mais triste que a perda”, ele filosofou, “é a idéia de que tudo o que restou de uma pessoa querida foi apenas um pacotinho de cinzas”.
            – Ele nunca foi cigarro para virar cinza – prosseguiu uma amiga de longa data, acrescentando que ele sequer era fumante em vida, detestava o cheiro de fumaça, inclusive engajava-se até em campanhas antifumo, era um antitabagista convicto, e agora podia ser condenado a passar o resto da vida, ou da existência, enfim, corria o risco de ser guardado em um reles cinzeiro até o final dos tempos, em uma triste e acintosa ironia.
            Um a um, os presentes foram consultados, apenas para conferir um caráter democrático à coisa, pois a decisão já estava tomada.
            Na mesma manhã, seguiu o féretro para São Paulo, onde seria feita a cremação.
            – Dá mais trabalho morto do que vivo – confidenciou uma tia da mulher que nunca fora simpática ao marido da sobrinha, mas que, muito mais em respeito a esta e à dor que sentia, bateu na boca e pediu desculpas pelo pensamento inoportuno, forçando-se até a derramar uma lágrima.
            A viúva recebeu uma pequena urna com as cinzas do morto como quem recebe um troféu.
            – Não a guarde dentro do armário – pediu uma amiga em comum. – Ele tinha claustrofobia, você sabe.                 
            – Não se preocupe – tranqüilizou a viúva, acarinhando a urna com a maciez de seu rosto. Os quinze anos de casamento mais pareciam o dobro, o triplo. Não no desgaste, mas no amor que só crescia a cada nova semana e, com o tempo, havia se transformado naquela terna e sincera cumplicidade sem a qual, sentia-se, ficaria difícil suportar as agruras diárias. Era um casal como “não se fazia mais”.
            Sim. Eram a fortaleza necessária um ao outro. E ela não iria abrir mão daquela sensação de segurança apenas pelo fato de o marido ter passado daquela para a, dizem, melhor. Naquela mesma noite, armou um jantar romântico, de despedida e presença, como definiu de si para si. Á luz de velas, envergando seu melhor vestido – um longo negro, como manda a tradição e pedia a situação – , exibindo brincos discretos e maquiagem leve, a viúva ofereceu-se o prato preferido do casal, “aquela” macarronada, a mesma que, quinze anos antes, fora o pretexto para o início da história de amor que viveram a partir de então. À sua frente, no mesmo lugar que ocupava quando vivo, o marido, feito cinza, dentro da urna.
            Encheu o prato com uma generosa porção. Não esqueceu de forrar uma taça com o melhor vinho que tinham na adega. O molho de tomate, caseiro, como ele gostava, fumegava numa tigelinha branca.
            Resoluta, tomou da urna. Abriu-a, com o máximo respeito, orou em silêncio e recolheu um punhado das cinzas do falecido com uma colher de café. Salpicou-as em sua comida, como se queijo ralado.
            – Aqui tem tudo o que você gosta, meu bem – disse. – Seu prato preferido. E sua mulher amada. Nada mais nos impede de sermos um só no outro.           
Comeu a macarronada com regalos de satisfação e uma alegria poucas vezes experimentada antes.

 

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