Quando o banal deixa de ser impossível
 
Acho que foi uma fase da minha infãncia interrompida. A "fase", no caso, refere-se às minhas tentativas de colecionar figurinhas. No começo, realmente, era muito divertido abrir os pacotes, pois quando o álbum está quase vazio, maiores são as chances de se encontrarem "figurinhas inéditas" para coleção. O problema era quando o álbum estava quase completo. O que deveria ser motivo de alegria transmutava-se em angústia, pois gastava "meu pobre dinheirinho" (como diria Tio Patinhas) e só vinham as "malditas figurinhas repetidas". Como uma praga.

Nunca completei um álbum. E quando percebi que era tão difícil, disse a mim mesmo, antes dos 10 anos de idade: "a partir de hoje largo a figurinha". Equivalia para uma criança à atitude de um adulto ao desistir do cigarro(Claro que estou falando de uma criança de apartamento, dessas que tem babá para levá-la ao parquinho, mas sei que existem crianças que nunca colecionaram figurinhas e também não têm a pretensão de largar seus vícios, que são piores do que a nicotina - contudo, essa história demandaria outra crônica bem mais profunda).

Hoje estava vendo o álbum de figurinhas recém-lançado, aproveitando a onda comercial em cima do novo filme do Homem-Aranha. E percebi: só não completa quem não quer. Você pode pedir a figurinha que falta até pela internet! E, caramba, outra idéia me veio: nestes tempos virtuais como deve ser mais fácil para colecionadores procurarem outros colegas na web, tendo em vista encontrar os cromos que faltam para sua coleção. A internet tem esse poder de agrupar as pessoas por interesses comuns.

Quando eu tentava colecionar figurinhas, terminava sempre com aquela sensação de frustração, de "incomplitude", acho que não é um positivo para ninguém sentir-se fracassado. Ou seja, acho que os álbuns acabavam sendo uma facada na auto-estima das crianças. Mas agora que isso mudou, será motivo para as crianças persistirem na coleção ou será que as facilidades levam os álbuns a serem abandonados até mais incompletos do que os meus?

Bom, se serve de consolo, a despeito de nunca haver terminado uma coleção, não sou do tipo de abandona as coisas pelo caminho. Pelo contrário.

Acho que em minha mente habitam milhares de álbuns ansiosos por um desfecho feliz, ou no caso, a figurinha derradeira.

 

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