Morte no futebol ou na vida real?
Na poltrona, vendo TV, fomos surpreendidos pela trágica morte do zagueiro Serginho, do São Caetano. O trágico e inesperado atingiu-nos de formas distintas, o que me inspirou a, a partir do fato, formular algumas questões que julgo merecedoras de um pouquinho de atenção.

Escrevo para aqueles que acompanharam o acontecido em tempo real pela tela da TV. Para começar, é importante fazer um distinção entre assistir ao jogo pela TV ou no estádio. Na segunda opção,temos a sensação de estar participando de um evento esportivo, importante manifestação cultural do povo brasileiro. Mas quanto disto se perde quando assistimos pela TV? Sim, pois desta maneira diminuem os gritos da torcida, substituídos em parte pelos comentários da equipe da televisão, que ora tentam nos guiar para um ponto de vista específico, ora anunciam outras atrações da emissora. Até nosso olhar agora é restrito pelo ângulo escolhido pela câmera, o ponto de vista da televisão. Embora com estas restrições, em casa, no conforto, mais sós do que no estádio, sentimo-nos algumas vezes melhor. Pois estamos longe da briga de torcidas, do trajeto eventualmente conturbado até o local do jogo, livre da ameaça dos arrastões que atingem aqueles que saem ou chegam para o evento. Conclusão: sem os perigos do trajeto, sem a vibração das pessoas em volta e com o olhar restrito pelo ângulo que o cameraman quer nos mostrar, estamos mais passivos do que nunca. Na tv, futebol é isto: entretenimento puro, porque nos leva para um mundo novo, irreal. Toda violência, guerra ou caos é substituído por uma partida. Existe a violência, mas não nos atinge porque não estamos em campo. Não é ameaçadora como uma bala perdida. Estamos a salvo. Um mundo irreal ou tão real quanto uma novela. Até que surge um episódio como o do zagueiro Serginho.

A morte quebra, invade. Então descobrirmos que os jogadores também fazem parte da realidade de que ansiávamos escapar. E saimos, momentanemente, da letargia. Os jogadores não são tão virtuais quanto parecem. São mais do que imagens, são de carne e osso. Nascem e morrem. A realidade que não nos afligia invadiu a telinha, definitiva.

Enquanto assistíamos ao jogo, na tranquilidade do lar, alguém arriscava a vida para poder prosseguir a carreira. Agora sabemos. E é sempre assim, o picolé que chupamos é questão de vida ou morte para alguém. Para alguém divertir-se no feriado, outro tem que trabalhar no ônibus. A questão a que me refiro não é a da luta de classes, mas a de como não percebemos diariamente a importância de todas as vidas que nos cercam e que nos permitem amar, trabalhar, divertir-se e até assistir a uma simples partida de futebol pela televisão. Por mais que a nossa realidade pareça uma grande partida de video-game.

Ricardo Caulfield
 

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