Texto de Ricardo Caulfield publicado no site da casa de shows Hangar 110

Dá para ser otimista?

Quem disse que este não é um país em desenvolvimento? É, sim, em desenvolvimento da miséria, da injustiça social, do crime, etc. Quem disse que não há futuro? Há, infelizmente, porque ele é sombrio. E por favor não me venham com esta conversa de que a inflação está estabilizada e outras coisas. É certo que existe o progresso, mas o problema é que a maioria ainda não usufrui de seus benefícios. Internet? OK, mas é bom lembrar que o contingente de analfabetismo é gigantesco e a fatia dos que tem computador ou recursos para entrar na rede é ínfima. Cara, vivemos em um país em que a fome ainda mata. Como é que em uma época em que se discute clonagem, ciberespaço e outros avanços tecnológicos um país com as riquezas do Brasil consegue se tornar cenário de tanto atraso? Difícil responder.

Sempre há uma luz no fim do túnel, mas no caso do Brasil, talvez seja a exceção para confirmar a regra. O meu pessimismo decorre das dificuldades para se mudar o nosso quadro social. Na polícia a corrupção aliada à falta de recursos fortalece o crime. Na política, muitos deputados e senadores são obstáculos para as mudanças que tornariam a sociedade mais justa. A tônica é o individualismo, os interesses próprios. E por melhor que seja o governo, hoje existe uma grande estrutura paralela daqueles que fazem suas próprias leis, e, poderosíssimos, jamais são desmascarados. Os grandes traficantes estão no morro? Duvido. Quem lhes dá cobertura?

E, para piorar a situação, o grande investimento que se faz hoje nesta terra é na ignorância, na alienação. Hoje importamos parâmetros consumistas de países ricos que não possuem o nosso índice de miséria e injustiça social. Nas novelas e anúncios, lá estão: carrões, aparelhos de som de última geração, corpos malhados/anabolizados, etc Só que não se pode querer que apenas uma parte do país se torne "primeiro mundo" com suas conquistas, enquanto o resto fica com a fome, a doença e a miséria. O resultado disto? Balas perdidas sobrevoam nossas cabeças. O resultado disto? O crime toma outra dimensão. Recentemente um jornal do Rio noticiou que jovens estão entrando cada vez mais cedo no tráfico de drogas. E um desses jovens disse que se tornara criminoso para poder comprar tênis e roupas de marca. Vejam bem: não é a fome que o incentivou, mas a sociedade que supervaloriza o status. Dá para ser otimista?

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