A diferença que desprezamos: um centavo
Quanto vale um centavo? Ou melhor, reformulando a questão: o que posso comprar ou pagar com a moeda deste valor? Não foi preciso pensar muito para concluir que a resposta é nada. Hoje nada custa esta soma tão irrisória. Por outro lado, nestes tempos de euforia consumista natalina, acabei percebendo que talvez um centavo valha mais do que aparenta.

E foi exatamente em uma loja de departamento, fazendo uma compra de CD para dar a um parente, que sobreveio esta minha “iluminação”. Após dar a soma de dinheiro ao rapaz da caixa registradora, observei que este recebeu o valor e virou o rosto, ignorando-me, como se já houvesse acabado a nossa relação comercial. Mas e o troco, pensei. E perguntei pelo centavo que me era de direito. Ele se assustou, e sem dizer uma palavra, pegou uma moeda de cinco centavos e me entregou, cinco vezes maior do que me devia!Em outra compra em outra loja de departamentos, a história foi diferente: a caixa disse-me com uma entonação robótica aliada a uma expressão canastrona de quem repetiu a mesma coisa pela enésima vez: “posso te ficar devendo um centavo?”. E eu concluí que era uma pergunta retórica. Quantas vezes esta loja ficou “me devendo um centavo”? Inúmeras vezes. Na realidade, eles não ficam devendo, pois quem fica devendo, paga um dia, e isto nunca acontecerá com esta loja. E eu respondi: “não”. E eles se deram ao trabalho de me dar um centavo, depois de que a fila ficasse um tempo parada e eu fosse visto como um “chato”(este é o termo mais educado que deve ter sido dito a meu respeito) pelos que estavam esperando atrás de mim.

E por que fazer questão de um centavo? Ora, porque desde que se convencionou que é uma maravilha de marketing cobrar R$14,99 ao invés de R$15, estas mesmas casas que cobram este preço relutam em te dar o troco, e, pior, muitas vezes acabam arredondando o preço sempre em detrimento ao bolso do consumidor. Gostaria de saber quantos centavos diariamente não são entregues ao comprador simplesmente porque o estabelecimento resolveu “ficar devendo”. Como podem argumentar que não têm troco, se eles mesmos criaram esta diferença para tornar a oferta mais convidativa? Se não possuem estrutura para dar o valor que é de direito do consumidor, então arredondem os preços para cima. A partir de hoje faço questão do meu centavo. Se, por acaso, a diferença de um centavo funciona decisivamente de forma a atrair os consumidores para uma compra, então eu faço questão. Se o centavo entre R$9,9 9 e R$10,00 é a diferença que vai atuar fazendo que o consumidor se decida pela loja que oferece o primeiro preço, então eu faço questão do meu centavo. Porque, fundamentalmente, ele vale bem mais do que o valor que lhe é atribuído.

Ricardo Caulfield

 

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